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Tribo isolada na Amazônia tem genes resistentes a antibióticos

Wikimedia Commons

Cientistas acreditam ter encontrado em índios Yanomamis a possível explicação para o surgimento de bactérias mais resistentes e também potenciais curas para diversas doenças

Diversidade bacteriana dos Yanomamis pode ter grande importância para várias condições de saúde

Pesquisadores descobriram que índios Yanomamis que vivem isolados no amazonas venezuelano carregam uma diversidade bacteriana nunca antes vista em grupos humanos. Segundo o estudo, os índios também apresentam genes resistentes a antibióticos conhecidos, inclusive genes que conferem resistência a drogas sintéticas.

Essa descoberta, feita a partir de amostras coletadas em 2009 e estudadas entre 2011 e 2014, pode abrir portas para novas terapias, já que algumas bactérias presentes em grandes quantidades nos Yanomamis demonstraram, previamente, efeitos benéficos para a saúde, como na prevenção da formação de pedras nos rins, por exemplo.

O fato de os Yanomamis não terem contato com povos ocidentais é o que mais desperta a admiração dos estudiosos. A microbiota dos índios - as bactérias que habitam o corpo, como as do intestino - é muito diversificada.

“As descobertas apontam para a possibilidade de que práticas modernas de culturas ocidentais estejam associadas à perda de diversidade bacteriana, e que genes resistentes a antibióticos podem ser uma característica natural da microbiota humana. Essa pesquisa levanta novas questões que são importantes para os pesquisadores explorarem”, disse a editora-chefe do periódico que publicou a pesquisa Journal of Science Advances, Philippa Benson, em conferência acompanhada pelo iG via internet.

Apesar de as bactérias naturalmente presentes no corpo exercerem um papel essencial na saúde, poucos estudos mostram a mudança das comunidades bacterianas de acordo com as diferentes dietas e estilos de vida ocidentais. Esse novo estudo pode ajudar cientistas a caracterizar esses micróbios associados ao corpo humano que sejam mais similares àqueles dos nossos ancestrais, e entender os benefícios que hospedar uma diversidade microbiana pode trazer.

Segundo Philippa, essas descobertas, a partir da informação de que os Yanomamis não foram expostos a antibióticos comerciais, são um mistério intrigante.

A condutora do estudo, Maria Dominguez Bello, explica que as bactérias do corpo humano têm um papel importante na fisiologia, inclusive na resposta imunológica, no metabolismo e até mesmo no comportamento.

“Até agora não sabemos até que ponto as nossas bactérias ocidentalizadas mudaram, em relação àquelas dos nossos antepassados”, disse a pesquisadora.

“Hoje temos muitas práticas antimicrobianas, como os nascimentos por cesárea, e o uso de antibióticos, sabonetes e produtos antibacterianos para higiene e limpeza”, diz. No entanto, ela ressalta que o mundo ainda abriga algumas populações remotas de caçadores ou grupos que vivem na era pré-antibiótica, similares àquelas em que viveram nossos ancestrais.

Sistema imunológico

José Clemente, pesquisador da Escola de Medicina Icahn, em Monte Sinai, Nova York (EUA), crê que essa diversidade bacteriana dos Yanomamis pode ter uma grande importância para várias condições de saúde, particularmente aquelas relacionadas ao sistema imunológico.

“Uma das maiores implicações dessa descoberta talvez seja que, mesmo a mínima exposição a práticas modernas, como no caso de outras comunidades que foram analisadas, pode resultar em uma queda drástica da diversidade bacteriana”, diz ele.


“Mais interessante ainda é que algumas das bactérias que enriquecem o povo Yanomami têm sido apontadas por trazer benefícios ao hospedeiro”.

Os cientistas também descobriram que a maioria dos Yanomamis carrega um pequeno, mas significante, nível de uma bactéria que está perto da extinção em outras populações. Essa bactéria já demonstrou ter uma ação protetora contra a formação de cálculos renais.

“Acredito que isso exemplifica muito bem a ideia de como as sociedades tradicionais que se adaptam ao estilo de vida ocidental estão perdendo muitos benefícios de hospedar uma rica diversidade bacteriana”, disse Clemente.

A causa da resistência dos genes a antibióticos não está totalmente esclarecida. Uma das hipóteses, segundo o pesquisador Gautam Dantas, é que essa resistência seja multifuncional ou plástica.

“Na verdade eles (os genes) podem ter outras funções naturais na bactéria. Mas, depois da exposição a antibióticos, podem ter sido reprogramados para fazê-las desenvolver essa resistência”, sugere Dantas.

“E isso faz sentido quando você considera que os antibióticos atingem os processos mais fundamentais e importantes da vida bacteriana. A parede celular produz proteínas essenciais que permitem a todas bactérias viverem”, completa.