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Passados os anos mais duros da pandemia, um volume crescente de estudos, revisões sistemáticas e depoimentos de autoridades de saúde permitiu revisitar, com mais dados e menos urgência, várias medidas amplamente adotadas entre 2020 e 2022. Algumas delas, hoje se sabe, tiveram efeito real limitado, consumiram recursos que poderiam ter sido usados de forma mais eficiente e, em alguns casos, até geraram uma falsa sensação de segurança. Outras poderiam ter sido implementadas de maneira diferente, ou mais cedo, com potencial de reduzir o número de mortes.

Este texto reúne o que a evidência científica pós-pandemia mostra sobre essas práticas, sem a intenção de apontar culpados — afinal, as decisões foram tomadas em meio a incertezas, informações incompletas e uma emergência sem precedentes recentes — mas para entender o que aprendemos e como isso pode orientar a resposta a futuras crises sanitárias.



Top 10 países com mais mortes por COVID-19

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Fonte: Worldometer / OMS (última compilação global)


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1. A obsessão com a limpeza de superfícies: o "teatro da higiene"

Nos primeiros meses da pandemia, era comum ver metrôs sendo pulverizados com desinfetante, embalagens de supermercado sendo higienizadas item por item e escritórios investindo em robôs de luz ultravioleta para "esterilizar" ambientes. Esse comportamento passou a ser chamado por especialistas de "teatro da higiene" — numa alusão ao conceito de "teatro da segurança" que surgiu após os atentados de 11 de setembro, quando medidas visíveis, mas de eficácia duvidosa, davam a sensação de proteção sem necessariamente proteger.

O problema é que a limpeza obsessiva de superfícies mirava um risco que, segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), era muito menor do que se imaginava: o órgão passou a informar que o contato com uma superfície contaminada tinha menos de 1 chance em 10 mil de causar uma infecção — um risco próximo ao de ser atingido por um raio ao longo da vida. O verdadeiro vetor de transmissão, como ficou claro depois, era o ar: partículas respiratórias e aerossóis liberados por pessoas infectadas, especialmente em ambientes fechados e mal ventilados.

Pesquisadores como o microbiologista Emanuel Goldman, da Universidade Rutgers, chegaram a publicar comentários na revista The Lancet Infectious Diseases argumentando que o risco de contágio por objetos e embalagens havia sido exagerado pela cobertura da imprensa e por estudos de laboratório que não refletiam cenários reais de contaminação. O efeito colateral mais preocupante, segundo especialistas em saúde ocupacional e educação, foi o deslocamento de atenção e recursos: dinheiro e esforço que poderiam ter sido investidos em ventilação — a medida que realmente reduz a transmissão pelo ar — foram gastos em desinfecção de cadeiras, paredes e corrimãos.


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2. Divisórias de acrílico: uma barreira que, em alguns casos, piorou a ventilação

As divisórias de plástico ou acrílico que separavam caixas de supermercado, mesas de escritório e carteiras escolares se tornaram um símbolo visual da pandemia. A lógica parecia óbvia: uma parede física impede a passagem de gotículas respiratórias. E, de fato, estudos de laboratório mostraram que essas barreiras conseguem bloquear parte das gotículas maiores emitidas em uma tosse.

O problema é que o SARS-CoV-2 se espalha principalmente por aerossóis — partículas muito menores, que permanecem suspensas no ar e podem contornar uma barreira física com facilidade. Pesquisas publicadas em periódicos como o Infection Control & Hospital Epidemiology mostraram resultados mistos: em testes com barreiras reais usadas em ambientes hospitalares, quase metade delas reduziu pouco ou nada a exposição a partículas em suspensão, e uma das barreiras testadas chegou a aumentar a concentração de aerossóis do lado "protegido", por criar bolsões de ar parado atrás do acrílico.

Estudos em escolas reforçaram essa preocupação. Um levantamento conduzido por pesquisadores da Johns Hopkins associou o uso de divisórias em carteiras escolares a um risco maior de infecção por coronavírus, provavelmente por interferirem na circulação natural do ar na sala de aula. Em um distrito escolar de Massachusetts, pesquisadores constataram que divisórias com paredes laterais bloqueavam o fluxo de ar em vez de simplesmente conter gotículas. Cientistas que assessoram o governo do Reino Unido concluíram que, na maioria dos contextos cotidianos, essas barreiras não traziam benefício direto relevante — e recomendaram priorizar ventilação adequada no lugar delas.


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3. A regra dos dois metros (ou seis pés) de distância

Poucas orientações sanitárias ficaram tão gravadas na memória coletiva quanto a recomendação de manter cerca de dois metros (seis pés, nos Estados Unidos) de distância de outras pessoas. Ela orientou o desenho de filas, a lotação de restaurantes, o espaçamento de carteiras escolares e até políticas de reabertura de fronteiras.

O que boa parte do público não sabia, na época, é que essa distância específica não vinha de um estudo robusto sobre o novo coronavírus. Segundo relatos posteriores de autoridades envolvidas na formulação da política nos Estados Unidos, o número seis pés foi, na prática, um meio-termo entre uma recomendação inicial de dez pés considerada "inoperável" por assessores da Casa Branca e a necessidade de uma regra fácil de comunicar ao público. O ex-diretor do NIH, Francis Collins, chegou a admitir, em depoimento ao Congresso americano, que a origem exata da regra era incerta. Anthony Fauci, por sua vez, reconheceu perante o Congresso que a recomendação de distanciamento de dois metros foi uma decisão empírica, e não baseada especificamente em dados sobre a covid-19.

Isso não significa que manter distância física seja inútil — reduzir a proximidade entre pessoas seguidamente ajuda a diminuir o contágio de doenças respiratórias. O problema é o valor específico e fixo de dois metros, tratado por muito tempo como um limiar quase absoluto de segurança, quando na realidade a distância "segura" varia enormemente conforme ventilação, tempo de exposição, tipo de atividade e se o ambiente é aberto ou fechado. A rigidez da regra atrasou, inclusive, decisões importantes: segundo críticos da política, somente em 2021 as autoridades reduziram a distância recomendada entre estudantes para cerca de um metro, permitindo reabrir escolas com mais alunos por sala — uma mudança que, segundo alguns especialistas, poderia ter sido feita antes.


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4. Fechamento prolongado de escolas

O fechamento de escolas foi, sem dúvida, uma das medidas mais dolorosas e debatidas da pandemia. A decisão fazia sentido diante da urgência inicial e da incerteza sobre o papel das crianças na transmissão do vírus. Com o tempo, no entanto, os dados sobre os custos dessa medida se acumularam — e eles são expressivos.

Revisões sistemáticas que reuniram dezenas de estudos ao redor do mundo estimam que um ano de escola fechada equivale, em média, a uma perda de aprendizagem próxima de um ano inteiro de conteúdo, e que a reabertura das escolas reduziu, mas não eliminou totalmente, esse atraso educacional. Dados do PISA (o exame internacional que avalia estudantes de 15 anos) mostraram queda média de desempenho em matemática equivalente a cerca de sete meses de aprendizagem perdida em dezenas de países, com impacto proporcionalmente maior sobre estudantes de famílias de baixa renda, meninos e imigrantes — um efeito que pesquisadores projetam poder se traduzir em perdas econômicas de trilhões de dólares ao longo das próximas décadas, por conta da menor produtividade futura dessa geração.

Um estudo de "experimento natural" na Holanda — país escolhido justamente por ter tido um lockdown escolar relativamente curto, banda larga quase universal e financiamento escolar equânime, ou seja, um cenário considerado favorável — constatou que os estudantes praticamente não avançaram no aprendizado durante o período de aulas remotas, com perdas concentradas sobretudo entre alunos de lares menos escolarizados.

Análises de custo-benefício mais recentes, que tentam colocar na balança tanto o valor das mortes evitadas quanto o custo econômico e educacional da perda de aprendizagem, sugerem que o fechamento de escolas nos Estados Unidos não foi custo-efetivo quando comparado a outras medidas de saúde pública adotadas na mesma época — ainda que os mesmos autores reconheçam que, em cenários de pandemias muito mais letais (como a gripe espanhola de 1918), fechar escolas pode, sim, compensar. Ou seja: a decisão correta depende muito da letalidade real da doença — algo que, no início de 2020, ainda não estava claro, mas que se tornou mais evidente à medida que mais dados epidemiológicos surgiram, especialmente sobre o risco proporcionalmente muito menor que a covid-19 representava para crianças em comparação com idosos.


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5. O que poderia ter reduzido o número de mortes

Se olhar para trás mostra o que não funcionou como esperado, também revela oportunidades que, na visão de pesquisadores e comissões de avaliação pós-pandemia, poderiam ter salvado vidas caso tivessem sido priorizadas mais cedo.

Investir em ventilação desde o início, e não como reflexão tardia. Uma das conclusões mais consistentes da literatura científica pós-pandemia, publicada inclusive na revista Science, é que a ênfase demorou demais a recair sobre a qualidade do ar interno. Autoridades sanitárias levaram meses para reconhecer formalmente a transmissão por aerossóis como via principal de contágio — um atraso que, segundo os próprios autores da revisão, custou caro, já que medidas de ventilação, filtragem de ar e monitoramento de CO2 em ambientes fechados são, hoje se sabe, muito mais eficazes do que a desinfecção de superfícies ou as barreiras de acrílico. Países como a Bélgica só passaram a exigir monitoramento de CO2 em espaços públicos depois da pandemia — uma medida que poderia ter sido adotada em 2020.

Ampliar a testagem rápida e acessível muito mais cedo. A escassez de testes no início da pandemia, sobretudo em países como os Estados Unidos, atrasou a identificação de casos e o isolamento de pessoas infectadas em um momento crítico de contenção. Relatos de pesquisadores que participaram da resposta em diferentes países apontam que a falta de uma infraestrutura de diagnóstico já pronta — e o fechamento, em vez do fortalecimento, de laboratórios de pesquisa que poderiam ter sido reconvertidos para testagem em massa — atrasou a capacidade de "encontrar, isolar, testar e tratar" cada caso, recomendação que a Organização Mundial da Saúde fazia desde os primeiros meses da crise.

Proteger de forma mais direcionada os grupos de maior risco. Desde muito cedo ficou claro que a letalidade da covid-19 era extremamente concentrada em idosos e pessoas com comorbidades, enquanto crianças e adultos jovens saudáveis corriam risco muito menor de complicações graves. Parte da comunidade científica argumentou, já em 2020, que uma estratégia mais direcionada — reforçando a proteção em asilos, hospitais e para pessoas de maior risco, enquanto se buscava manter escolas e partes da economia funcionando com protocolos de segurança — poderia ter reduzido mortes sem os custos educacionais e econômicos generalizados de restrições amplas. Essa abordagem foi, e ainda é, objeto de debate acalorado entre especialistas: críticos apontam que seria difícil, na prática, isolar de forma eficaz apenas os grupos de risco em uma sociedade interconectada, e que medidas amplas de contenção ajudaram a evitar o colapso de sistemas hospitalares em vários países. O consenso possível é que, independentemente da estratégia geral adotada, a proteção de asilos e instituições de longa permanência para idosos — que concentraram uma parcela desproporcional das mortes em vários países — deveria ter sido tratada como prioridade máxima e urgente desde a primeira semana da crise, o que nem sempre aconteceu.

Acelerar a produção e distribuição global de vacinas, com mais equidade. A vacina foi desenvolvida em tempo recorde, um dos maiores sucessos científicos da pandemia. O gargalo seguinte, porém, foi a distribuição: países de alta renda compraram doses muito acima de sua necessidade populacional, enquanto nações mais pobres levaram muito mais tempo para vacinar até mesmo seus grupos de risco. Especialistas em saúde global argumentam que um mecanismo de distribuição mais equitativo — e investimento prévio em capacidade de produção descentralizada, inclusive em países de renda média — poderia ter reduzido tanto o número de mortes quanto o tempo de circulação do vírus, diminuindo a chance de surgimento de novas variantes.

Comunicação mais transparente sobre incertezas. Um ponto recorrente em análises pós-pandemia é que autoridades sanitárias, em vários países, apresentaram recomendações mutáveis — como a orientação inicial contra o uso de máscaras pela população geral, revertida poucas semanas depois — sem deixar claro que essas mudanças refletiam uma ciência ainda em formação, e não erros ou incoerência. Reconhecer abertamente o que ainda não se sabia, em vez de projetar uma certeza que não existia, é apontado por pesquisadores como um fator importante para preservar a confiança pública — algo essencial para que a população siga orientações em crises futuras.


Uma ressalva importante

Nada disso deveria ser lido como uma condenação simples das autoridades que tomaram essas decisões. A maior parte dessas medidas foi adotada em um contexto de incerteza extrema, com um vírus novo, dados escassos e a necessidade de agir rapidamente diante de hospitais lotados e milhares de mortes diárias. Avaliar essas escolhas com o conhecimento acumulado depois — o famoso "olhar em retrospecto" — é mais fácil do que decidir em tempo real, sob pressão e sem as informações que hoje temos disponíveis.

Ainda assim, entender o que funcionou e o que não funcionou é exatamente o tipo de exercício que pode preparar melhor o mundo para a próxima emergência sanitária — reduzindo o tempo de resposta, direcionando melhor os recursos e, com sorte, evitando parte das mortes que talvez pudessem ter sido evitadas.


Fontes consultadas: CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA); artigos publicados em Lancet Infectious Diseases, Infection Control & Hospital Epidemiology, Science, PNAS e npj Science of Learning; reportagens do The Atlantic, ABC News, Seattle Times e CBC News; depoimentos de Anthony Fauci e Francis Collins ao Congresso dos Estados Unidos; e revisões sistemáticas sobre perda de aprendizagem durante a pandemia.

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